07 Junho, 2009

Quais os riscos dos casamentos consanguíneos?

"Casamento Índio" (ca. 1931), de Alfredo Ramos Martínez (Corneteiro)

Quem são os indivíduos consanguíneos? São aqueles que apresentam pelo menos um ancestral comum. Porém, além do ancestral comum estes indivíduos podem ter herdado um gene recessivo deste mesmo ancestral. Quanto maior o grau de consanguinidade, maiores são as chances disto ocorrer.

O que são os genes recessivos? São aqueles que precisam estar em dupla dose para que a característica que determinam estar presente no organismo do portador. Em outras palavras, para manifestarmos uma característica recessiva é necessário recebermos este gene no cromossomo de origem materna e no de origem paterna.

Um exemplo de característica recessiva é o albinismo. Ela está presente em diversas espécies. Para ser albino o indivíduo precisa ter recebido este gene em dupla dose, ou seja, no cromossomo que herdou de seu pai e no que herdou de sua mãe.
Chimpanzé Albino (Rainha Vermelha)

Apesar das dificuldades que acarreta, o albinismo é uma característica que não afeta a viabilidade ou a fertilidade de seus portadores. Dessa forma, eles podem deixar descendentes retransmitindo esse gene para a próxima geração. Por tal motivo apesar de sua frequência na população ser baixa, ele não é classificado como um gene raro.

Porém há genes recessivos que são considerados raros porque sua frequência na população é tão baixa que quase não ocorrem indivíduos manifestando suas características. Por exemplo, há o caso de Dede Koswara, o homem árvore, acometido pela infestação de uma forma variante do HPV. Esta é uma infecção bastante comum que causa geralmente pequenas verrugas. Porém Dede tem um problema genético que faz com que seus anticorpos sejam incapazes de combater ou simplesmente deter o crescimento das verrugas, que lhe atrofiaram as mãos e pés dando-lhes um aspecto de raiz.
Homem “árvore”
A doença de Dede é a Epidermodysplasia verruciformis (também chamada dysplasia de Lewandowsky-Lutz), uma anomalia genetica autossômica recessiva extremamente rara (Wikipedia), que pode ilustrar o efeitos dramáticos de alguns genes recessivos raros.

Ao conjunto de genes recessivos que causam anomalias denomina-se a carga genética de uma população, porque se manifestam raramente uma vez que os portadores costumam ter apenas uma cópia do gene.

Assim, se a frequência de um gene numa população for UM por Um milhão a chance de dois indivíduos não consanguíneos possuírem uma cópia desse mesmo gene raro é de QUATRO em UM TRILHÃO. Porém, se estes indivíduos forem primos em primeiro grau essa chance passa a ser de um oitavo ou 12%. Esse valor é dado pelo coeficiente de consanguinidade, que mede a probabilidade de ambos os indivíduos terem recebido o gene de um mesmo ancestral comum.

Já no caso de um gene com frequência de 50%, a probabilidade que ambos os indivíduos de um casal não consanguíneos possuírem uma cópia desse gene recessivo é 25%, ou seja, é maior do que o grau de consanguinidade, isso significa que, mesmo entre consanguíneos, é mais provável que um casal tenha recebido este gene de ancestrais diferentes.

Supondo que esse gene recessivo com frequência igual a 50% seja o responsável pela incapacidade de enrolar a língua em forma de U. Nesse caso, um casal não consanguíneo desta população terá a chance de 6,25% de gerar um filho que não conseguirá enrolar a língua. No caso de um casal consanguíneo essa chance é calculada pelo índice de endocruzamento, o qual, para primos em primeiro grau é 1/16 ou 6,25%. Desse modo, para um gene com freqüência igual a 50% não haveria diferenças, entre casamentos de primos em primeiro grau ou indivíduos não aparentados.

Porém, na hipótese anterior de uma anomalia rara a chance de um casal normal ter um filho afetado passa a ser de 1 em UM TRILHÃO, enquanto no caso dos primos em primeiro grau continuará sendo 6,25%, o que representa 62.500.000.000, ou seja, é sessenta e dois bilhões e quinhentos milhões de vezes maior do que para casamentos não consanguíneos.

Em síntese: O efeito nocivo dos casamentos consanguíneos é aumentar muito as chances de surgirem descendentes afetados por anomalias raras.

Um exemplo concreto é a Aquiropodia estudada pela equipe de Newton Freire-Maia. Esta é uma anomalia genética rara que afeta o desenvolvimento embrionário impedindo que se formem antebraços, mãos, pernas e pés.

Aquirópodo (Araújo, K.)

O primeiro caso de aquiropodia estudado foi uma família descoberta no Paraná em 1930, formada a partir de um casal de primos que teve doze filhos: seis normais e seis aquirópodos. Depois desta família foram descobertas outras famílias todas envolvendo casamentos consanguíneos. Segundo Ademar Freire-Maia, até 1992 tinham sido identificados 61 aquirópodos pertencentes a 28 famílias resultantes de casamentos consanguíneos, todas brasileiras. Algum tempo depois foi descrito um caso em uma família de Porto Rico. Sabe-se que o gene causador da aquiropodia é muito raro e está no cromossomo 7.

Outro exemplo é a Síndrome de Quelce-Salgado, também chamada de nanismo polimicrodátilo. Ela consiste em um encurtamento extremo dos membros e deformação grave de pés e mãos. Cada dedo reduz-se a um segmento único ovalado, preso ao membro apenas por partes moles. A doença é claramente devida a um gene autossômico recessivo. Segundo Araújo, K., todos os afetados do Brasil são provavelmente aparentados e resultaram de casamentos consangüíneos.
Síndrome de Quelce-Salgado

Nos dois exemplos estudados, a prevalência de afetados gerados por casais consanguíneos comprova o efeito da consanguinidade no aumento de filhos que sejam portadores de características determinadas por genes raros. Em síntese: quanto mais raro for um gene, maior será o efeito do endocruzamento.

Bibliografia:
ARAÚJO, Kelly Lana. Doenças hereditárias transmitidas por genes autossômicos recessivos. Disponível em http://www.ufv.br/dbg/BIO240/dg17.HTM, acesso em 06 de junho de 2009.

BORGES-OSÓRIO, M.R. & ROBINSON, W.M. Genética Humana. Editora Universidade/UFRGS/Artes Médicas, Porto Alegre, 1993.

FREIRE-MAIA, Ademar. Aquiropodia: uma anomalia brasileira? Ciência Hoje. São Paulo, v. 14, n. 82, p. 12-17, 1992.

FREIRE-MAIA, Ademar. De ratos e homens: enigmas científicos. JC OnLine: vida & ciência. 2000. Disponível em: http://www2.uol.com.br/JC/_2000/0311/cma0311.htm Acesso em 06/06/2009.

IANAKIEV, P. et al. Acheiropodia Is Caused by a Genomic Deletion in C7orf2, the Human Orthologue of the Lmbr1 Gene. The American Society of Human Genetics. 2001. Publicação on line 22 de novembro de 2000. Disponível em: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=1234933 Acesso em 06/06/2009.

11 comentários

Richard disse...

Putz!
Parabéns pela postagem!
A gente sempre soube sobre esse tipo de coisa, mas com exemplos raros, nunca vi!

. disse...

Por favor peço que arrumem a parte sobre a Epidermodisplasia Verruciforme, Dede Koswara não é o unico, nem foi o primeiro a apresentar essa rara anomalia.


http://en.wikipedia.org/wiki/Epidermodysplasia_verruciformis

. disse...

Por favor peço que arrumem a parte sobre a Epidermodisplasia Verruciforme, Dede Koswara não é o unico, nem foi o primeiro a apresentar essa rara anomalia.


http://en.wikipedia.org/wiki/Epidermodysplasia_verruciformis

Anônimo disse...

É por isso que é bom deixar aquela prima gostosa, que vive te atiçando na dela, pq isso pode acarretar graves problemas no futuro.

Gladis Franck da Cunha disse...

Já arrumei o texto sobre o caso de Dede, este tipo de comentário é sempre bem-vindo para as correções necessárias. De qualquer forma, embora não seja único, este é um exemplo importante dos efeitos de alguns genes que compõem a carga genática humana.

Anônimo disse...

Sou Casada como meu primo, porém, não vamos ter filhos juntos.
O amor é muito importante, masnão devemos nos esquecer das nossas responsábilidades.
Mil Bjs!

Rebeca disse...

oi!namoro um primo, gosto muito dele.
sei q se tivermos filhos a chanse de termos
filhos com anomalias é grande!
quero a opnião de vcs, o q devo fazer, terminar?
ou se ficarmos juntos tem com evitar essas anomalias, como uma gravidez por esseminação.
o q faço!!!!
bjosss! Rebeca

Rebeca disse...

se quizerem entrar em contato comigo
e me esplicar melhor sobre esse assunto
pode me add rebecal_23@hotmail.com
ficarei agradecida!
boa tarde!!!

Gladis Franck da Cunha disse...

Rebeca,

O iedal é fazer como a anônima acima que casou com o primo e resolveram não ter filhos. Vocês devem avaliar esta questão e pensar em alternativas como adoção. A inseminação só teria sentido se o óvulo ou os espermatozóides não forem de um de vocês. Ous seja, se usassem os teus óvulos os espermatozóides deveriam ser de outra pessoa e não do teu primo, por outro lado se usassem os espermatozóides dele teriam que usar óvulos que não fossem os teus. Complicado né?
Ainda acho a adoção uma alternativa menos traumática.

Rebeca disse...

oi Gladis!
isso é, mas eu já falei isso pra ele
(adotar ou ñ ter filho)mas ele disse: nem pensar!
é dificil, ñ sei o q fazer, acho q o melhor é terminar.
preciso criar coragem, ñ sei como, nem de onde,
mas acredito q será a melhor decisão,pois ñ quero ter filhos com deformidades. sabe o q penso as vezes, antigamente esse tipo de relacionamento acontecia com frequencia e os filhos de ambos eram normais,principalmente antes de cristo, Abraão era meio irmão de sara e tiveram Isaque perfeito,acho q quando agente coloca nas mãos de Deus e confia isso pode ñ acontecer.
estou confusa. valeu pela dica
bjossssssss

Anônimo disse...

nossa! nunca ouvi falar sobre isso
legal saber.E vivendo e aprendendo.

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