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28 Junho, 2009

Cenas de um casamento. Casaram e viveram...


Ao final das histórias costumamos iniciar a frase: E viveram... e o Pedro, de 2 anos e 10 meses, sempre completa...felizes para sempre.

Na vida real o que significa um casal viver feliz para sempre?
Primeiro temos que encontrar uma alma gêmea, mas precisamos nos dar conta que no mundo real esse é apenas o primeiro passo. Quando tratamos com pessoas reais temos que aprender a conviver com hálitos, suores, puns, inseguranças, confiança, determinação, temores, arrojo, ansiedade, humores, saúde e doença, enfados e anseios. Neste caso é possível ser feliz para sempre? É sim, mas requer cuidados, pois o amor é como um jardim, que deve ser tratado ou se enche de ervas daninhas.
1982 - início da vida em comum

No começo de um relacionamento somente vemos as qualidades do outro, mas aos poucos percebemos suas fragilidades. Nesse momento, se em vez de repreender, apoiamos, começamos a construir um matrimônio perfeito.

1990

Um perigo a ser evitado é a transformação do lar em firma, burocratizando o relacionamento. Uma casa exigiria um investimento sem fim para ficar perfeita, então é melhor ir levando e ajustando e investir mais energia no companheirismo. É preciso buscar interesses em comum e realizar atividades juntos.

Voo Livre desde 1995

Quando um grande amor se torna um grande amigo, ele fica ainda mais forte. Quando se temos coisas em comum, conversamos mais e, se houver bom humor, criamos momentos de legítima felicidade.

Uma peça a quatro mãos (2007)

O que fazer quando surgem as discussões? Devemos nos policiar para não estendê-las nem dar-lhes muita importância, pois tudo passa. Mas não nos iludamos, porque alguns defeitos não tem concerto, parecem que vem junto com o DNA. Nesse caso, devem ser estoicamente ignorados, especialmente se forem picuinhas, irritantes, mas picuinhas.

Quando aprendemos a amar as pessoas como elas são descobrimos que é possível ser feliz para sempre, sim, porém isso não exclui os dias ruins, as irritações, as esperas, as pequenas decepções. Ser feliz para sempre significa saber que apesar de tudo, a melhor coisa da vida é viver com esse amor real, que por vezes precisa do nosso apoio, por outras nos apóia e, na maioria das vezes, dá boas risadas conosco.

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24 Junho, 2009

Conclusão: Tensionamentos Filosóficas sobre Distinções entre Ética e Moral na Política Brasileira.

10º Capitulo: "Tensionamentos Filosóficos sobre Distinções entre Ética e Moral na Política Brasileira."

Autor: Isaias Malta da Cunha
Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Ética e filosofia Política
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Köche
Bento Gonçalves, agosto de 2007.

Para arrematar a proposição inicial definidora da ética como produto social, há que se avançar sobre a compreensão do sistema político brasileiro além da percepção social de desvinculação ético e política. Ao conceito de homem naturalmente social é possível imbricar o de sociedade naturalmente ética. Assim, a negação da ética como substrato decorrente do existir social é fator realimentador das crises políticas, normalmente percebidas em seu imediatismo moral. Num esforço para trazer à tona a ética subvalorizada nos debates conceituais sobre a crise política brasileira, foi necessário recorrer a incursões históricas, sociológicas e antropológicas para purificar a ética contaminada pela moral subjetiva, para então contemplá-la sob a ótica sistêmica, a fim de justificar logicamente a sua inerência ao ato político, bom ou mau. Outrossim, a percepção da má política como destituída de ética, conduz à crítica iníqua, porque centrada exclusivamente nas exigências de virtude dos agentes políticos, porque abstraidora dos escaninhos das estruturas de poder, onde se encontram os interstícios legais de que se valem as ilicitudes.

Como já referido, o leitmotiv perpassador deste texto é a hipótese da continuidade histórica de determinados elementos éticos, que podem ser identificados no passado colonial e patrimonialista. Porém, a ênfase em não preferir a abordagem socialogizante se justifica porque não é apenas na estrutura do Estado, nem no arcabouço legal e nem nas engrenagens sociais, onde vão ser encontradas respostas sintéticas para o insidioso continuísmo dialético. Decerto elas se encontram dispersas nos fatores citados e mais além, no imaginário submerso do inconsciente coletivo. A sua gênese se deu nos primórdios da implantação do Estado pronto, numa terra sem a singularidade do cidadão, nem a particularização da sociedade. Mas a identificação da origem não explica a sua entronização e perduração histórica, para a qual é necessário recorrer à hipótese do processo dialético malicioso, cujo moto principal é mudar a aparência sem mudar a essência.

O lançar mão do fio condutor teórico da colossal construção filosófica hegeliana no tocante ao pensamento do Estado como instância eticizante, se deu para permitir o estabelecimento de comparações entre o forte Estado ético interpretado em Hegel e o perceptivelmente fraco Estado moral brasileiro. A contraposição não teria sentido se não houvesse a suposição de que por trás da fraqueza moral brasileira existe um forte Estado estabilizado historicamente, cujo produto dialético principal foi ter sustentado a paradoxal ambigüidade modernizadora e preservadora da ideologia colonial. Porém, uma revisitação a Hegel tem que ser executada sob alguns cuidados, mais especificamente, submetendo o viés utópico das suas proposições ao filtro contemporâneo do post-mortem metafísico, apesar de Hegel ter se prevenido contra os utopismos, principalmente quando explana o seu método, no início da sua Filosofia do Direito:

Tal dialética não é, conseqüentemente, a atividade externa de um pensamento subjetivo, senão que é a alma do conteúdo que engendra e exibe seus ramos e frutos organicamente. O pensamento subjetivo não faz mais do que contemplar o crescimento da idéia como atividade da sua própria razão, e mesmo que um tanto subjetivamente, não agrega nada seu ao processo. Pois ao contemplar uma coisa de maneira racional, ao considerar a racionalidade que lhe é própria, não lhe atribui uma razão externa, elaborando-lhe uma a seguir, de acordo com esta. Neste livro se trata do espírito livre, que é a culminância da razão autoconsciente. É o que se realiza aqui, engendrando-se como mundo existente. A ciência filosófica se limita, nesse caso, em levar à consciência o trabalho que realiza a própria razão do assunto em questão. (HEGEL apud CORDUA, 1992, §31)

Depreende-se um finalismo idealista para o bom e o justo quando Hegel se refere ao Estado como "realidade da idéia ética", "realidade da vontade substancial", "realidade da liberdade concreta", etc. Por ser o “Estado absolutamente racional” e estágio máximo de universalização, Hegel atribui nele a efetivação da liberdade onde “o indivíduo, por sua parte, graças à sua disposição de ânimo em direção ao Estado, que é em essência seu fim e o produto da sua atividade, encontra nele a sua liberdade substancial.” (HEGEL apud CORDUA, 1992, p.30).

Ao contemplar o caso brasileiro faz-se necessário realizar uma operação de mudança do finalismo do bem para o da subsistência histórica. Assim, ao invés de um Estado concebido como “[...] espírito ético enquanto vontade substancial manifesta e clara para si, que se pensa e se conhece e que realiza o que sabe na medida em que sabe.” (HEGEL apud CORDUA, 1992, p.196), faz-se a substituição da teleologia desta vontade pelo impulso inercial de perpetuação do modelo, tanto no estado efetivado, quanto no seu desenvolvimento histórico. Então, diante dos fatos históricos formadores da sociedade civil brasileira, as inquirições devem ser no sentido de trazer à luz os pressupostos éticos herdados de Portugal que foram entronizados e resistiram aos impulsos reformadores ao longo de cinco séculos, se enriquecendo e se mimetizando quase à maneira da proposição de Hegel de uma dialética do conceito, impulsionadora do seu enriquecimento:

A dialética do conceito, diferentemente, é superior à versão negativa porque ela mesma é desenvolvimento e progresso imanente ao conceito. Como se chega a isso? A dialética em nosso sentido considera a determinação do conceito como um conteúdo positivo do mesmo. Em vez de ver a determinação que particulariza o universal somente como limite e oposto, os vê na função positiva que desempenham para o enriquecimento do conceito, que juntamente com a particularização, adquire um conteúdo determinado. (HEGEL apud CORDUA, 1992, p.30)

Sob a perspectiva do desenvolvimento e enriquecimento, é notável que o sistema ético implantado no Brasil colônia tenha passado por vários ciclos dialéticos de universalização-particularização-singularização, e os princípios, mesmo quase extintos em sua justificação inicial, tenham sobrevivido intactos, embora o resto do sistema tenha seguido o curso normal de modernização. Assim, a dialética hegeliana concebida como um movimento de superação, tem tido na história brasileira o papel de mecanismo de preservação de alguns princípios sob camuflagens ocultadoras. A superação tem tido a função de reciclar algumas figuras arcaicas que, embora originariamente no sistema hegeliano imbuídas do impulso para o bom e o justo, remanescem na realidade brasileira enquanto estamentos voltados para a continuidade histórica: o príncipe e a burocracia da classe geral como mediadores da vontade de todos.

Ao se proceder a operação de troca da teleologia hegeliana pelas particularidades inerentes àquilo que se pode chamar de realismo político brasileiro de cunho maquiaveliano, surge um Estado antitético em relação aos fins, mas profundamente hegeliano no seu funcionamento real, podendo-se dizer que mesmo que não seja Hegel em espírito, o é na realidade da sua efetivação.

A comprovar as similitudes, a figura do poder subjetivo do príncipe persiste como foco do poder, não mais encarnado na subjetividade do monarca, porém subsistente eticamente. Quando Hegel introduz alguns elementos sofísticos na sua lógica para satisfazer seus pontos de vista, por vias transversas está descrevendo o realismo político brasileiro:

Por um lado, nos parágrafos certamente menos convincentes da Filosofia do direito, ele "deduz" – através de argumentos falsamente lógicos e, portanto, objetivamente sofísticos – a necessidade de que a soberania "exista enquanto pessoa natural do monarca."E, por outro, numa postura mais realista mas nem por isso menos antidemocrática, esforça-se por situar a manifestação concreta da soberania (ou da vontade geral) – a sua transformação em efetivo poder de governo– na burocracia, designada por ele como "classe (ou estamento) geral". Desse modo, a burocracia se torna o efetivo portador material da vontade geral: "A classe geral, que se dedica mais de perto ao serviço do governo, deve ter imediatamente, em sua determinação, o universal como finalidade de sua atividade essencial. (COUTINHO, 2007, p.11)

Hegel “maduro” não foi a favor da democracia como elemento mediador entre a Sociedade Civil e o Estado, ele por não acreditar num poder exercido diretamente pela vontade geral, instituiu as instâncias de mediação representadas pela vontade subjetiva do monarca e a função da classe geral, ou seja, a casta burocrática operadora do aparelho de governo.

Ao atribuir à burocracia a condição de "classe geral", Hegel termina por recusar explicitamente a concepção (rousseauniana!) de que "todos devem tomar parte na discussão e resolução das questões gerais do Estado",ou seja, termina por negar a necessidade e possibilidade de constituição de uma esfera pública que socialize e democratize o poder. (COUTINHO, 2007, p.12)

Essa é descrição do núcleo de poder perpetuado no Brasil? Não diretamente, mas pode se supor que o Estado de Hegel despido do seu conteúdo teleológico, remeta a um Estado maquiaveliano, onde o príncipe tem como fim a conservação do poder. Há que se voltar o olhar para a parte ocultada do sistema ético, a fim de trazer à luz princípios tão internalizados, que passam despercebidos pelos crivos da crítica política. Sob a hipótese do Estado brasileiro como a síntese entre Maquiavel e um Hegel do “mal”, ele mescla eficientemente a maliciosa conservação do projeto de poder do príncipe com a forte estrutura ética marcada por mediações não democráticas. Na anatomia de tal Estado sintético, alguns pressupostos éticos remanescem desde os primórdios do século XVI:

1- A figura do Príncipe, dotado de poder imperial, que apesar da adoção da filosofia do Estado Democrático de Direito, persiste na raiz do sistema político presidencialista vigente. Durante as eleições presidenciais, o eleitor não faz a escolha do representante máximo do poder executivo, outrossim, busca eticamente um “salvador da pátria”, um imperador que resolva todos os problemas do país;

2- Uma aristocracia repaginada ao iluminismo, composta de toda a burocracia operadora das três esferas montesquianas de poder e pelos cidadãos ricos. Modernamente chamada de elite, seus membros têm direito a foro privilegiado, diretamente afeito ao Supremo Tribunal Federal, que é um tribunal constitucional por um lado e por outro, concessor generoso de indultos à uma casta que jamais conheceu freio moral ao longo de 500 anos de história. Assim, uma vez morto o império, subsiste o princípio ético consagrador da classe situada além do bem e do mal;

3- O exercício do poder, longe dos ideais de equanimidade entre os três poderes, tem a preponderância do poder executivo, historicamente de notável ascendência sobre o poder legislativo, que se move sob os desígnios imperativos do “Príncipe” e sua corte, cabendo às câmaras legislativas o papel de referendadoras das leis exaradas pelo poder de fato que, nascido de intenções colonialistas, ainda predomina como poder à moda de moderação imperial.

A problemática mediação entre Sociedade Civil e Estado tem sido executada por uma casta, de características de transmissão semi-hereditárias, incrustada nas altas esferas republicanas, numa zona não suficientemente demarcada de sobreposição entre o público e o privado. Assim, o Estado não completamente universalizado, por não ser o resultado da totalidade da idéia da sociedade civil, não chega a se singularizar na pessoa do príncipe, uma vez que tal figura persiste apenas como subsunção ética. Por trás da normalidade democrática do Estado de direito, há uma camada cinzenta de burocratas portadores da vontade geral? O clamor das críticas políticas indica que sim, favorecendo mais uma aproximação a Hegel quanto à mediação burocrática de poder. No seu sistema, a mediação entre a sociedade e o Estado não é democrática, pois se dá sob o utopismo de uma naturalidade virtuosa atribuída a classe geral (burocracia), que a capacita para o exercício do poder. Excetuando-se a utopia da virtuosidade, tal mediação pode ser tomada como uma descrição realista da vigente no Brasil:

Portanto, a figura concreta da vontade geral não é mais buscada, como em Rousseau, na assembléia dos indivíduos virtuosos – e, portanto, malgrado o utopismo, num espaço intersubjetivo criado por meio do contrato e do consenso –, mas na suposta "sabedoria" de uma cinzenta camada de burocratas que atuaria weberianamente sine ira et studio. (COUTINHO, 2007, p.12)

Como nenhum país pode garantir que o seu Estado seja operado apenas por notáveis virtuosos, a precaução contra o desvio moral dos agentes públicos deve vir de outra parte. E o antídoto contra a utopia da virtude certamente deve estar contido na estrutura ética do Estado, cujo corpo de leis, fiéis aos princípios de igualdade preconizados pelos ideais iluministas, administra a igualdade entre os cidadãos.

Uma das críticas éticas que está surgindo no cenário social se concentra na concessão de privilégios corporativos, provável coadjuvante causadora da sensação de impunidade, uma vez que a disseminação da idéia irradiada ao corpo social de que os aristocratas jamais serão pegos pelas barras da justiça, redunda na sensação de ineficácia dos aparelhos repressivos do Estado. Porém, as pressões exercidas contra um dos princípios mais caros ao conservadorismo brasileiro ainda são débeis, porque grandemente contaminadas pelo reducionismo dos debates ao superficialismo moral contingente, onde a ênfase no julgamento da conduta dos atores ofusca a visão do guarda-chuva ético garantidor da soberania do poder.

Como a discussão sobre a estrutura do Estado é objeto da sociologia, cabe à filosofia desenvolver o debate sobre objetos mais sutis situados no domínio dos bens humanos inalienáveis da ética e moral. E para a sua contextualização no espaço filosófico social, se prestam as distinções entre ética e moral formuladas nos “Princípios da Filosofia do Direito” de Hegel. Destarte, à luz das concepções hegelianas, foi suscitado um jogo de contraposições entre o real e o idealizado, sob a argumentação de um Estado brasileiro eticamente forte e coesamente estável, como um filho adulterino que Hegel jamais adotou. No entanto, aproveitando o rol da recepção do seu sistema que lhe atribui o caráter de Estado ético e forte próprio das ditaduras, houve a leitura de um Brasil totalitário oculto sob a vigência do regime democrático representativo, implícito na sua injustiça social crônica.

No Brasil quase se tem a figura do Príncipe, porque subsumida eticamente e quase se tem o estamento aristocrático, embora convertido conceitualmente aos moldes dos Estados modernos. Banida da visibilidade ética, a aristocracia permanece sob o lusco fusco das leis infraconstitucionais tutelada pelo foro privilegiado, sob o eufemismo de “foro especial por prerrogativa de função”, uma filigrana jurídica extrapolante à malícia dos legisladores, porque resultante da reminiscência ética.

O resultado dos componentes coloniais internalizados foi a criação de um Estado fortemente ético, não teologicamente voltado para o bem, mas para a sua reprodução ao longo do tempo, atendendo a um delicado mecanismo dialético conceitual, onde o todo é aprimorado segundo as inovações humanistas, sem contudo, sofrer abalos no cerne dos arquétipos submersos.

Supõe-se que o Brasil, um dos países campeões mundiais de má distribuição de renda, somente possa ser explicado por ter mantido na sua estrutura básica o modus operandi espoliativo idealizado pelo colonizador europeu. E as discussões sob o pano de fundo moral que a sociedade tem empreendido são insuficientes para o aprofundamento e questionamento da continuidade dos fulcros éticos. Ao abordar a institucionalização dos mecanismos de controle social, este texto aponta uma via de desencadeamento do movimento de contestação aos princípios éticos, uma alternativa de reforço ao impulso reformador que atenda às demandas sociais.

A horizontalização do poder exercido pelas entidades civis, através de constantes pressões sobre a ação política, pode fustigar a tradição do Príncipe subsumido ao quebrar a lógica de uniteralidade das ações políticas. Ao ser implantado o princípio da obrigação de prestação de contas, a demanda por critérios cada vez mais transparentes no manejo da coisa pública será cada vez mais intensa. E ao prestar contas, o Estado será cada vez mais forçado a servir, ou seja, um fato novo na história política brasileira.

Sob a impossibilidade do desvencilhamento completo das utopias, é possível imaginar que o Brasil, contraditando a percepção geral de que as coisas estão piorando, esteja avançando num caminho novo de apropriação do Estado pela Sociedade Civil. Certamente que a visão pessimista se baseia na tradição positivista de aversão ao debate, pois as exigências sobre o governo e os retornos em forma de justificativas, retroagires e mudanças de rumo, se dão através de muita discussão. Aparentemente o aumento do ruído social e das artimanhas do Estado acuado diante das cobranças, sugere que tudo piorou. Contudo a democracia é uma casa permanentemente assaltada pelo barulho dos embates, talvez a única via não revolucionária de mudança de princípios éticos cristalizados. Os veículos de apropriação foram criados e estão atuando e eles se substancializaram na forma dos controles sociais, em cuja atuação repousam as esperanças de produção de rupturas na insidiosa dialética de reprodução do sistema colonialista.

Bibliografia.

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11 Junho, 2009

Fernando de Noronha: do desinteresse de Darwin à retomada do paraíso.

Diário- parte 9
Texto original[1] de Charles Darwin (CD).
Comentado por: Gladis Franck da Cunha (GFC)

Fernando de Noronha

Sobre Fernando de Noronha Darwin relatou:

(CD): 20 de fev. - “Tanto quanto me foi possível observar durante as poucas horas que permanecemos neste lugar, a ilha é de constituição vulcânica, não, porém de data recente. O que há de mais notável em seu caráter é uma colina de forma cônica, elevando-se a cerca de trezentos e dez metros de altura, e tendo o cume excessivamente escarpado, um lado do qual se projeta fora da base. A rocha é monolítica e divide-se em colunas irregulares. Ao olhar uma destas massas isoladas, tem-se a princípio a impressão de que ela teria sido propelida bruscamente para cima num estado semifluido.

(GFC): Darwin destinou apenas um dos menores parágrafos de seu diário para descrever Fernando de Noronha, enquanto Américo Vespúcio, que chegou ao arquipélago no dia 10 de agosto de 1503, o havia descrito como: "infinitas águas e infinitas árvores; aves muito mansas, que vinham comer às mãos; um boníssimo porto que foi bom para toda a tripulação"(Gastronomia Brasil).

(GFC): A princípio, nos causa estranheza tal desinteresse por um paraíso ecológico, já que os rochedos de São Paulo, um ambiente muito menos rico, ele descreveu com todos os detalhes possíveis. Por tais motivos, pode-se questionar: Por que será que o Beagle permaneceu tanto tempo junto aos rochedos, um lugar aonde os tripulantes do navio não se interessavam em desembarcar, como salientou o próprio Darwin, “[...]Sir W. Symonds, uma das poucas pessoas que desembarcaram aqui[...]”?

Enquanto em Fernando de Noronha, “um cenário único formado por ilhotas rochosas, onde estão algumas das praias mais bonitas do Brasil e cuja beleza natural é tão incrível, que a palavra mais usada pelos visitantes para defini-la é: paraíso (Tucan Tour)” ele ficou apenas poucas horas?

(GFC): Para tentarmos responder a estas questões, vamos retroceder no tempo a 1832, ano em que o Beagle passou por lá. Como seria este “arquipélago cinco estrelas” nesse ano? Segundo sabemos de sua história “esse conjunto de 21 ilhas e ilhotas foi, por 201 anos, um presídio infernal” (folha UOL).

Um pouco de história:(Retomada da ilha em 1629 - Óleo de Wash Rodrigues )

Após a passagem de Vespúcio (1503) a ilha foi ocupada por holandeses de 1629 a 1654 Após a expulsão dos holandeses o arquipélago foi tomado por franceses de 1736 a 1737, quando foram expulsos. A partir da expulsão dos franceses, Portugal iniciou sua colonização e a igreja de N.S. dos Remédios, marco da nova povoação, foi concluída em 1772 (Fernando de Noronha on line).


Os primeiros presos começaram a ser enviados para a ilha de forma ocasional
, mas essa destinação gerou medidas preventivas que vieram a alterar, profundamente, o meio ambiente insular. Houve a destruição de grande parte da cobertura vegetal para evitar fugas e esconderijos de presos. Além disso, houve a introdução de espécies estranhas ao local, causando modificações ambientais com consequências visíveis até os nossos dias (Fernando de Noronha on line)..

A Vila de Nossa Senhora dos Remédios e a Vila da Quixaba contribuíram para a degradação do meio ambiente, pois foram construídas casas, igrejas e outras edificações. Neste processo, os presos eram utilizados como mão-de-obra para revestir de pedras todos os caminhos da ilha por onde passariam as autoridades (Gastronomia Brasil).

Ruinas da Vila Quixaba (por Paulo Hildebrand)



A imagem do arquipélago vista do dirigível Zepelin que o sobrevoou em 1933 evidencia seu aspecto degradado.


(GFC): Somente em 1942, em plena segunda guerra mundial, Fernando de Noronha inicia seu período de paz, porque se transformou em Território Federal, sendo os presos políticos e comuns transferidos para o presídio da ilha grande. Hoje Fernando de Noronha vive da exploração racional do turismo, dentro das limitações impostas pelo seu delicado ecossistema e da atividade pesqueira, que é do tipo artesanal e voltada para o consumo interno (Fernando de Noronha on line).

(GFC): Se por uma lado a história de Fernando de Noronha explica o desinteresse de Darwin por um território degradado e habitado por prisioneiros. Por outro, ela aponta para a esperança, pois é um registro vivo de que através de políticas adequadas e ações concretas o ser humano é capaz de recuperar o paraíso!


Nota:
[1] -– Texto usado para as citações: Darwin, C., Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.

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07 Junho, 2009

Quais os riscos dos casamentos consanguíneos?

"Casamento Índio" (ca. 1931), de Alfredo Ramos Martínez (Corneteiro)

Quem são os indivíduos consanguíneos? São aqueles que apresentam pelo menos um ancestral comum. Porém, além do ancestral comum estes indivíduos podem ter herdado um gene recessivo deste mesmo ancestral. Quanto maior o grau de consanguinidade, maiores são as chances disto ocorrer.

O que são os genes recessivos? São aqueles que precisam estar em dupla dose para que a característica que determinam estar presente no organismo do portador. Em outras palavras, para manifestarmos uma característica recessiva é necessário recebermos este gene no cromossomo de origem materna e no de origem paterna.

Um exemplo de característica recessiva é o albinismo. Ela está presente em diversas espécies. Para ser albino o indivíduo precisa ter recebido este gene em dupla dose, ou seja, no cromossomo que herdou de seu pai e no que herdou de sua mãe.
Chimpanzé Albino (Rainha Vermelha)

Apesar das dificuldades que acarreta, o albinismo é uma característica que não afeta a viabilidade ou a fertilidade de seus portadores. Dessa forma, eles podem deixar descendentes retransmitindo esse gene para a próxima geração. Por tal motivo apesar de sua frequência na população ser baixa, ele não é classificado como um gene raro.

Porém há genes recessivos que são considerados raros porque sua frequência na população é tão baixa que quase não ocorrem indivíduos manifestando suas características. Por exemplo, há o caso de Dede Koswara, o homem árvore, acometido pela infestação de uma forma variante do HPV. Esta é uma infecção bastante comum que causa geralmente pequenas verrugas. Porém Dede tem um problema genético que faz com que seus anticorpos sejam incapazes de combater ou simplesmente deter o crescimento das verrugas, que lhe atrofiaram as mãos e pés dando-lhes um aspecto de raiz.
Homem “árvore”
A doença de Dede é a Epidermodysplasia verruciformis (também chamada dysplasia de Lewandowsky-Lutz), uma anomalia genetica autossômica recessiva extremamente rara (Wikipedia), que pode ilustrar o efeitos dramáticos de alguns genes recessivos raros.

Ao conjunto de genes recessivos que causam anomalias denomina-se a carga genética de uma população, porque se manifestam raramente uma vez que os portadores costumam ter apenas uma cópia do gene.

Assim, se a frequência de um gene numa população for UM por Um milhão a chance de dois indivíduos não consanguíneos possuírem uma cópia desse mesmo gene raro é de QUATRO em UM TRILHÃO. Porém, se estes indivíduos forem primos em primeiro grau essa chance passa a ser de um oitavo ou 12%. Esse valor é dado pelo coeficiente de consanguinidade, que mede a probabilidade de ambos os indivíduos terem recebido o gene de um mesmo ancestral comum.

Já no caso de um gene com frequência de 50%, a probabilidade que ambos os indivíduos de um casal não consanguíneos possuírem uma cópia desse gene recessivo é 25%, ou seja, é maior do que o grau de consanguinidade, isso significa que, mesmo entre consanguíneos, é mais provável que um casal tenha recebido este gene de ancestrais diferentes.

Supondo que esse gene recessivo com frequência igual a 50% seja o responsável pela incapacidade de enrolar a língua em forma de U. Nesse caso, um casal não consanguíneo desta população terá a chance de 6,25% de gerar um filho que não conseguirá enrolar a língua. No caso de um casal consanguíneo essa chance é calculada pelo índice de endocruzamento, o qual, para primos em primeiro grau é 1/16 ou 6,25%. Desse modo, para um gene com freqüência igual a 50% não haveria diferenças, entre casamentos de primos em primeiro grau ou indivíduos não aparentados.

Porém, na hipótese anterior de uma anomalia rara a chance de um casal normal ter um filho afetado passa a ser de 1 em UM TRILHÃO, enquanto no caso dos primos em primeiro grau continuará sendo 6,25%, o que representa 62.500.000.000, ou seja, é sessenta e dois bilhões e quinhentos milhões de vezes maior do que para casamentos não consanguíneos.

Em síntese: O efeito nocivo dos casamentos consanguíneos é aumentar muito as chances de surgirem descendentes afetados por anomalias raras.

Um exemplo concreto é a Aquiropodia estudada pela equipe de Newton Freire-Maia. Esta é uma anomalia genética rara que afeta o desenvolvimento embrionário impedindo que se formem antebraços, mãos, pernas e pés.

Aquirópodo (Araújo, K.)

O primeiro caso de aquiropodia estudado foi uma família descoberta no Paraná em 1930, formada a partir de um casal de primos que teve doze filhos: seis normais e seis aquirópodos. Depois desta família foram descobertas outras famílias todas envolvendo casamentos consanguíneos. Segundo Ademar Freire-Maia, até 1992 tinham sido identificados 61 aquirópodos pertencentes a 28 famílias resultantes de casamentos consanguíneos, todas brasileiras. Algum tempo depois foi descrito um caso em uma família de Porto Rico. Sabe-se que o gene causador da aquiropodia é muito raro e está no cromossomo 7.

Outro exemplo é a Síndrome de Quelce-Salgado, também chamada de nanismo polimicrodátilo. Ela consiste em um encurtamento extremo dos membros e deformação grave de pés e mãos. Cada dedo reduz-se a um segmento único ovalado, preso ao membro apenas por partes moles. A doença é claramente devida a um gene autossômico recessivo. Segundo Araújo, K., todos os afetados do Brasil são provavelmente aparentados e resultaram de casamentos consangüíneos.
Síndrome de Quelce-Salgado

Nos dois exemplos estudados, a prevalência de afetados gerados por casais consanguíneos comprova o efeito da consanguinidade no aumento de filhos que sejam portadores de características determinadas por genes raros. Em síntese: quanto mais raro for um gene, maior será o efeito do endocruzamento.

Bibliografia:
ARAÚJO, Kelly Lana. Doenças hereditárias transmitidas por genes autossômicos recessivos. Disponível em http://www.ufv.br/dbg/BIO240/dg17.HTM, acesso em 06 de junho de 2009.

BORGES-OSÓRIO, M.R. & ROBINSON, W.M. Genética Humana. Editora Universidade/UFRGS/Artes Médicas, Porto Alegre, 1993.

FREIRE-MAIA, Ademar. Aquiropodia: uma anomalia brasileira? Ciência Hoje. São Paulo, v. 14, n. 82, p. 12-17, 1992.

FREIRE-MAIA, Ademar. De ratos e homens: enigmas científicos. JC OnLine: vida & ciência. 2000. Disponível em: http://www2.uol.com.br/JC/_2000/0311/cma0311.htm Acesso em 06/06/2009.

IANAKIEV, P. et al. Acheiropodia Is Caused by a Genomic Deletion in C7orf2, the Human Orthologue of the Lmbr1 Gene. The American Society of Human Genetics. 2001. Publicação on line 22 de novembro de 2000. Disponível em: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=1234933 Acesso em 06/06/2009.

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31 Maio, 2009

REFLEXÕES SOBRE A MEMÓRIA

Musa[1] por Refuerzo Tecnologia.

A memória é a capacidade de reter e recuperar informações, permitindo que o indivíduo se situe no presente considerando o passado e o futuro. Ela fornece as bases para o conhecimento, habilidades, sonhos, planos e anseios. É, portanto, um aspecto central da inteligência e existência humanas (Tomaz, 1993).

O bioquímico sueco Holger Hydén demonstrou que, durante o aprendizado ocorre a síntese de proteínas cerebrais específicas. Assim, quando um animal começa a aprender uma tarefa nova, surge em poucos minutos uma proteína de vida breve, mais tarde o mesmo tipo de produção é verificado em áreas corticais responsáveis pelo armazenamento de longa duração, há, portanto, uma memória breve e outra prolongada (Covian, 1989).

Del Nero explica que, no armazenamento de informação, são formadas sinapses e sintetizadas proteínas. As sinapses ou conexões nervosas apresentam intensidades diferentes fazendo com que determinados estímulos sejam mais intensamente percebidos que outros, de acordo com as vivências particulares de cada indivíduo.

Para o autor, as cenas do mundo são percebidas pelo cérebro como oscilações. Ao longo do nosso desenvolvimento cognitivo, aprendemos a correlacionar as oscilações provenientes do mundo com as nossas oscilações cerebrais. As oscilações cerebrais unificadas constituem a mente. Assim através da atividade sincronizada de diferentes redes neuronais somos capazes de criar imagens mentais e transmiti-las usando uma linguagem (Del Nero,1997).

Nossas imagens de mundo envolvem a estruturação cerebral na forma de redes, as quais possibilitam perceber o mundo exterior ou os estímulos ambientais.

Precisamos construir redes neuronais, para ver ou captar o mundo. Isto envolve processos que dependem da interação entre sujeito e meio e obedecem às leis gerais do desenvolvimento biológico. Ao longo do desenvolvimento cognitivo, começamos a assimilar as informações, ou oscilações do meio, de acordo com as redes já constituídas.

Ao assimilar novas informações, podemos nos desequilibrar e a reequilibração vai depender de uma acomodação, a qual modifica o sujeito por promover a construção de novas redes neurais, sucessivamente.
Jogo de memória (lápis amarelo)

Ao considerar o cérebro como uma estrutura que armazena as informações do mundo, e a codificação como uma forma econômica de armazenamento de dados, o símbolo surge como uma eficiente solução para uma melhor utilização da capacidade ou “espaço” cerebral.

A eficiência ou capacidade de simbolizar muda com o aprendizado e a experiência. Como exemplifica Del Nero (1997, p. 175), um mau jogador de xadrez, olhando para um tabuleiro pensaria, “se eu mover a torre para cá, o outro moverá o peão para lá”, já o bom jogador, diante da mesma cena pensaria, “se eu ameaçar o flanco do rei, forçarei a troca de damas em alguns lances”. Dessa forma, utilizando um mesmo espaço cerebral, ou memória trabalho[2], o bom jogador consegue antecipar mais jogadas do que o mau.

A experiência diferencia o bom do mau jogador, permitindo que, através de símbolos, o primeiro seja capaz de condensar em cenários o que o segundo observa apenas pontualmente. Quando Del Nero afirma que herdamos símbolos, comparando-os com pedaços de madeira, que esculpimos com a experiência, entendo que se refira a uma espécie de “matriz de símbolos”.

Assim, da mesma forma que um filme fotográfico pode gravar informações luminosas, uma fita magnética, informações magnetizadas, um CD, informações digitalizadas, os neurônios de armazenamento de memória se constituem numa “superfície” capaz de gravar informação simbolizada.

Ao ampliar nossa capacidade de armazenar informações, os símbolos ampliam o próprio ato de percepção do mundo, embora, substituindo a resposta direta e imediata das reações orgânicas pela resposta diferida caracteristicamente humana.

Bibliografia:
COVIAN, Miguel R. O problema cérebro e mente. In: Ciência Hoje v. 10, n. 58, p. 16-20, 1989.

DEL NERO, Henrique S. O sítio da mente: pensamento, emoção e vontade no cérebro humano. São Paulo : Collegium Cognitivo, 1997.

TOMAZ, Carlos. Memória: mecanismos celulares. Ciência Hoje. São Paulo, v. 16, n. 94, p. 6-7, 1993.

Notas:
[1]- As nove musas são filhas de Manemosine e Zeus. São elas: Calíope da poesia épica; Clio da história; Polinia da pantomima; Euterpe da flauta; Talia da comédia; Erato do canto lírico; Tepsícore da poesia e da dança; Melpomene da tragédia e Urania da astronomia (Refuerzo Tecnologia). O interessante é verificar que toda a inspiração é fruto da memória e do poder de criação.

[2]- É chamada de memória trabalho, a memória envolvida no processamento da ação.

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29 Maio, 2009

Mecanismos de Controle Social no Brasil: uma esperança no inferno da corrupção?

9º Capitulo: "Tensionamentos Filosóficos sobre Distinções entre Ética e Moral na Política Brasileira."

Autor: Isaias Malta da Cunha
Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Ética e filosofia Política
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Köche
Bento Gonçalves, agosto de 2007.

A crescente exigência de transparência reflete o anseio de controle da Sociedade Civil sobre o Estado. Postulou-se no capítulo anterior que no Brasil não houve a implantação do Estado nem por decorrência do naturalismo social aristotélico, tampouco por força do contrato hobbesiano. Até hoje se debate a urgência do estabelecimento de um “Pacto Social”, que nada mais é do que o contrato hobbesiano que nunca foi pactuado, pois:

enquanto em sociedades homogêneas, como a dos países desenvolvidos, um contrato social hobbesiano é suficiente, em sociedades subdesenvolvidas e dualistas é necessário adicionalmente um pacto político desenvolvimentista. (BRESSER-PEREIRA, 1995, p.2).

Mas, excluindo a tomada do poder pela via revolucionária, a forma de ruptura da ilegitimidade para a realização do Estado como instância universalizante é a cobrança constante sobre o agir político através das instituições da sociedade organizada e, a partir de 1988 foram regulamentados os dispositivos de pressão ética. Doravante, a soberania do Estado perdeu o caráter de inviolabilidade, porque os agentes públicos passaram a ter a obrigação legal de prestar contas dos seus atos. Com a mudança de paradigma, houve a promulgação da lei de responsabilidade fiscal que colocou freio na uniteralidade das decisões políticas.

A dialética que até fins do século XX foi mantenedora de alguns arcabouços quinhentistas, recebeu um novo impulso contraditório potencializador da descristalização das figuras subsumidas do Príncipe e da aristocracia. O caminho possível para o estabelecimento de um pacto que supere o impasse referido por Bresser-Pereira é através do acordamento social baseado na reforma ética. Um caminho não sangrento para implantar no mecanismo dialético o movimento para dentro do inconsciente coletivo, que refute princípios remanescentes do antigo império colonialista português. O caminho para as mudanças no Estado ético pode ter sido deflagrado na histórica reviravolta ocorrida na constituição de 1988, onde o cidadão, e não mais o Estado, se tornou o eixo principal, num resgate das etapas queimadas de singularização e particularização, ocorrida no início do processo colonizador:

A Constituição Federal de 1988 fez história ao eleger o cidadão como objetivo principal, promovendo a integração dos direitos sociais e coletivos em seu texto e o reconhecimento concreto da cidadania, da dignidade da pessoa humana e fornecendo meios para que qualquer pessoa lute contra a injustiça em todas as suas formas e nuances. (DROPA, 2007, p.1)

A definição do conceito de “controle social”, ou “accountability”, “palavra sem tradução que está relacionada aos mecanismos que obrigam gestores a prestar contas de seus atos - base para garantir a confiança em nossas instituições”. (STORCH, 2007, p.1) Para uma melhor aproximação à função requerida, a seguinte definição é corroboradora do revigoramento dialético:

Falar em accountability é falar num atributo ou qualidade do Estado, isto é, o poder público deve estar sujeito a estruturas formais e institucionalizadas de constrangimento de suas ações à frente da gestão pública, assim ele se vê obrigado a prestar contas e a tornar transparente sua administração, publicizando suas ações e iniciativas de políticas públicas, bem como seus gastos orçamentários. Por outro lado, o controle social é um atributo ou qualidade da própria sociedade civil, que deve ser municiada e habilitada para acionar os mecanismos de interpelação junto à gestão pública, de modo que os cidadãos possam impedir que seus interesses sejam contrariados. Para tanto, é necessário não só estabelecer princípios legais e instituições que funcionem como instrumento de coerção do poder público, mas também que haja uma sociedade realmente capaz de controlar o poder público. (FERREIRA, 2007a, p.1)

Constituem os mecanismos de controle social os conselhos, ONG’s, organizações da sociedade civil, imprensa, tribunais de conta, defensoria pública, sindicatos, e muitos outros que cumprem a função de demandar sobre o Estado as suas funções primeiras de prestador de serviços à sociedade.

Diante da novidade da sua implantação e a sua falta de maturidade, a atuação desses controles ainda é desviada excessivamente para as questões morais, em detrimento do questionamento do sistema ético como um todo. A imprensa, permanentemente pautada pelos escândalos políticos, permanece no curto prazo das denúncias sobre a atuação subjetiva dos altos escalões da república, omitindo-se do debate de longo prazo, da crítica paradigmática. O mote recorrente deste estudo volta à baila: a falta de discernimento entre ética e moral, os princípios éticos subsumidos e
a ênfase excessiva na subjetividade moral, tem robustecido o forte Estado ético dialeticamente instalado. Além de se prestar como mais um elo mantenedor do status quo, as críticas morais têm incrementado a despolitização da população, ao provocar desinteresse, repulsa e frustração, não obstante que tais assuntos interferirem diretamente no seu modus vivendi.

À luz da especulação aristotélica postulante do homem como animal naturalmente social e político, a rejeição à política é um ato político por excelência, porém um “mau” ato, porque reforçador dos pressupostos profundamente submersos no inconsciente coletivo, tematizados ao longo deste texto. O resultado das intensas campanhas enxovalhadoras da política ecoadas na mídia amplificam as desconfianças históricas que o brasileiro tem em relação ao Estado, levando à não realização plena da universalização, que implica na sensação de não pertencimento a uma nação.

Apesar das ressalvas, os mecanismos de controle social constituem a melhor forma para reformar a mediação unívoca entre Estado e Sociedade Civil, do ponto de vista sociológico. Por outro lado, filosoficamente eles representam uma forma de superação da aporia ética, que tem sido responsável tanto pelo acabamento da grande filosofia, como no caso brasileiro, pela deformação conceitual observável na massa crítica da sua inteligentzia.

Bibliografia.

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22 Maio, 2009

Aplicações práticas do conhecimento sobre DNA.

Cartoon de The DNA Store

A técnica:
A identificação genômica foi descoberta por Alec Jeffreys, que observou DNA repetitivo no gene da mioglobina. Verificou a seguir que estas repetições se espalhavam ao longo de todo o genoma com comprimentos variáveis, de modo que formavam bandas distintas em um gel (publicou seus resultados na Nature em 1985).

O método PCR (reação em cadeia da polimerase) permite a amplificação de amostras diminutas de DNA para análise.

A contaminação das amostras é um dos grandes perigos quando se faz análise por DNA deste modo esta deve ser uma prova complementar e não exclusiva.

Alguns casos reais

1-Utilização no judiciário:
Através de DNA têm sido provada de forma mais exata a paternidade de várias crianças.

Caso 1- Em1985, um teste de DNA foi usado para identificação do cidadão britânico Andrew Sarbah (afro-descendente) que havia saído do país para visitar o pai em Gana e estava sendo proibido de retornar, acusado de não ser um inglês e sim um provável imigrante ilegal.

Caso 2 - Em1983, no vilarejo de Narborough, uma menina de 15 anos foi encontrada morta após estupro e o assassino não foi descoberto; em 1986, outra menina de 15 anos também foi encontrada morta nas mesmas condições, indicando que o assassino era o mesmo. A análise do DNA retirado do sêmen presente nos corpos das duas meninas provou que o assassino era o mesmo. Esse teste provou também que o primeiro suspeito preso era inocente. Por isso, foram solicitadas amostras de sangue de vários homens do vilarejo e região. Após a primeira eliminação pela análise de grupos sanguíneos, as amostras restantes foram analisadas para o DNA. No primeiro momento o criminoso alegando pavor de agulhas convenceu um amigo a fornecer a amostra em seu lugar, porém uma pessoa, que ouviu esse amigo comentando o que tinha feito, levou a polícia ao verdadeiro criminoso, que foi preso.

Caso 3 - Em 1998 – M.L. Anderson (com 34 anos) foi solto após 15 anos de prisão sob condicional, embora outra pessoa já tivesse anteriormente confessado o crime de estupro e assassinato. Apenas em 2001 ele foi inocentado a partir da análise de DNA de materiais obtidos na cena do crime e que por um desleixo na devolução ainda não haviam sido destruídos.

Caso 4 - Em 1994, os advogados de O.J. Simpson conseguiram impedir a utilização dos testes de DNA alegando a provável contaminação das amostras em função do desleixo na obtenção das mesmas pela polícia.

Caso 5 - Em 1994 vários estados dos EUA aprovaram leis que permitem a obtenção compulsória de amostras de DNA de detentos ou pessoas que sejam presas sob suspeita, para organizar um cadastro de DNA, assim como há o cadastro de impressões digitais. Porém, muitas pessoas se rebelam contras estas leis, porque o DNA pode servir par identificar outras coisas além da identidade.

Caso 6 - No ataque às Torres Gêmeas o DNA foi usado para identificação das vítimas. Mais recentemente no Brasil estes testes foram usados para identificar a vítimas do vôo 1907 da Gol, que caiu em 29/09/2006).

2- Os testes de DNA e a Medicina:
À medida que aprendermos mais sobre os fundamentos genéticos de afecções adultas relativamente comuns – de diabetes à cardiopatias -, a bola de cristal biológica irá se tornar cada vez mais clara, revelando sinais genéticas que dizem respeito a todos nós. (WATSON; BERRY, 2005 p. 371)

E quanto a tratamentos? A maioria das doenças genéticas nos deixa com a mesma frustração aflitiva da doença de Huntington: sabemos o suficiente para diagnosticá-las, talvez até como evitá-las, mas não como tratá-las. (WATSON; BERRY, 2005 p. 373)

Algumas doenças já podem ser identificadas utilizando-se sondas de DNA entre elas se pode destacar:

A Coréia de Huntington que é uma doença neurológica de deterioração progressiva das funções cerebrais. Suas primeiras manifestações se parecem com um estado de embriaguês. Ela é determinada por um gene dominante que se manifesta, em geral, a partir da idade adulta (35 anos ou mais) quando os afetados já deixaram descendência. Exceções são observadas na região do Lago Maracaio na Venezuela onde crianças manifestam esta doença de incidência excepcionalmente alta. (Na Inglaterra, um rapaz de 20 anos foi impedido pela Justiça de fazer o teste para esta doença, porque seu pai não queria saber esta informação. Como o avô paterno do rapaz tinha tido a doença, se ele fosse portador seu pai certamente seria também.)

Também já é possível detectar a presença do gene recessivo ligado ao sexo que determina a distrofia muscular de Duchenne (DMD); o gene para fibrose cística, que resulta numa produção excessiva de muco nos brônquios, favorecendo a proliferação de bactérias e as infecções pulmonares.

Porém os custos para descoberta das sondas são muito altos e acabam sendo bancados por laboratórios particulares que patenteiam as sondas encarecendo os exames.

A maioria das características e doenças genéticas não resulta de genes únicos e sim da interação de vários genes, dificultando muito sua identificação pelo método de sondas de DNA, pois a obtenção das mesmas se torna demasiado complexo. Além disso, nestes casos, o efeito ambiental é sempre maior. Exemplos deste tipo de doença são: o câncer, a asma, além de diversas características comportamentais e doenças neurológicas ou psiquiátricas.

Em 2000 a deCODE obteve licença para operar um cadastro de saúde na ISLÂNDIA onde há ótimos registros genealógicos e desde 1914 os prontuários médicos são padronizados e facilmente acessíveis. O objetivo da empresa era detectar e estudar doenças como a esclerose múltipla e o mal de Alzheimer, entre outras. Para proteger a privacidade a identidade do doador deve ser criptografada, pois há o temor de identificação de “famílias com genes ruins” que possam ser discriminadas em planos de saúde, por exemplo. Em 2003 a empresa prometia publicar artigos sobre a genética da esquizofrenia (WATSON ; BERRY, 2005), mas ainda não há boa divulgação à respeito.

Um dos grandes problemas da identificação genética de doenças é a impossibilidade de tratamento das mesmas, de modo que apenas se pode informar a uma pessoa que ela é portadora, ou não, de um gene ou tem chances maiores ou menores de desenvolver uma enfermidade determinada por vários genes.

Nas fecundações in vitro, quando o embrião está no estágio de 8 células, pode-se retirar uma delas e amplificar seu DNA detectando-se a presença ou não de doenças genéticas antes da implantação. Desse modo, as mulheres podem optar por não engravidarem desse embrião. Por outro lado, os exames de amniocentese apenas informam a presença de anomalias e deixam para as gestantes a decisão de interromper, ou não, uma gravidez, que já está em curso.

A síndrome do X-fágil é uma forma de retardamento mental hereditário, dominante ligado ao sexo, embora as mulheres tenham efeitos menos severos. No cromossomo X normal há uma seqüência repetitiva de CGG com cerca de 30 repetições, nos portadores do X frágil esta seqüência se repete de 50 a 90 vezes. À medida que o número de repetições aumenta a doença se torna mais severa e se manifesta mais cedo. Estas seqüências tendem a aumentar a cada meiose até que impossibilitem o X de produzir RNA. Assim é possível detectar uma pré-mutação, repetições acima de 30, mas inferiores a 50, que não causam problemas ao portador, mas que podem gerar descendentes afetados. Esse exame pode alertar as mulheres sobre a alta possibilidade de gerarem filhos afetados.

Referências Bibliográficas
WATSON, J.D. ; BERRY, A. DNA – O segredo da vida. São Paulo : Companhia das Letras, 2005.

HAAG, K. L. Testes baseados na variação da seqüência de DNA: uma ficção que se tornou realidade. In SACCHET, A.M.O.F. (org) Gnética para que te quero? Porto Alegre : Ed. Universidade/UFRGS, 1999.

NICCO, Andrew. GATTACA (filme), USA ; Columbia Pictures, 1997.

Informações e análise do filme por Giovanni Alves (2003)

Notas:
[1] - Este texto foi elaborado para subsidiar a análise do filme GATTACA, a fim de responder as questões: 1- Com base no texto de apoio, que relações podem ser estabelecidas entre o filme e o conhecimento e usos atuas das tecnologias de DNA e fecundação artificial? 2- Comente a seleção artificial de seres humanos por seres humanos. Explique por que não poderiam ser utilizados apenas critérios baseados nos tipos de genes presentes. 3- Comente a frase de capa do DVD: “Não há genética para o Espírito Humano”.

[2] - Determinismo é uma postura filosófica que parte do princípio de que a presença de um gene leva obrigatoriamente ao aparecimento de uma característica.

[3] - Eugenia é uma postura filosófica que parte do princípio de que há uma raça geneticamente superior a outras na Terra.

[4] - O fenótipo é sempre o resultado da interação entre o genótipo e o meio. Organismos com um mesmo fenótipo podem gerar fenótipos diferentes quando se desenvolvem em ambiente diferenciados.

[5] - O fenótipo é quem sofre a seleção e não os genes isolados.

[6] - Além dos genes estruturais que são responsáveis pela síntese das proteínas do organismo, há diferentes sistemas de regulação gênica que afetam o fenótipo como um todo.

[7] - Entre os fatores que afetam a seleção direta dos genes podem-se destacar: a combinação de diferentes genes; a presença de elementos transponíveis e a ligação gênica.

[8] - Interação gênica ocorre quando um ou mais genes de um loco interferem na manifestação de um ou mais genes de outro loco.

[9] - Penetrância é a freqüência com a qual um gene em dose simples (para características dominantes) ou em dose dupla (para características recessivas) se expressa no fenótipo correspondente. Quando é inferior a 100% denomina-se de penetrância incompleta ou reduzida.

[10] - Entre os fatores de regulação gênica e de reparo do DNA se incluem: hormônios, que são bastante afetados pelo meio; enzimas, que são codificadas por genes específicos e a condensação cromossômica, que é um tipo de regulação mecânica.

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21 Maio, 2009

Darwin descreve a fauna do arquipélago de São Pedro e São Paulo

Diários parte 8
Texto original deCharles Darwin (CD)
Comentários de Gladis Franck da Cunha (GFC)

Viuvinha com filhote por Pbase

(GFC): O arquipélago de São Pedro e São Paulo é o hábitat natural de tubarões baleias e martelos, moradores permanentes da região e das lagostas, que se contam aos milhares, algumas quase centenárias. Grandes pelágicos também freqüentam o local, onde costumam se concentrar para armazenar energia e continuar suas longas migrações (Wikipedia). Todavia ele é um ambiente inóspito para humanos, pois não há nele uma planta ou musgo sequer e, principalmente, nenhuma gota de água doce. Apesar disso, Darwin desembarcou e explorou este “porto” inseguro, descobrindo toda uma comunidade de animais terrestres, que se apoiam uns nos outros para sobreviverr nestas condições extremas.

(CD)
: "Nos rochedos de São Paulo somente encontramos duas qualidades de aves – uma espécie de pelicano e de gaivota, ambos tão mansos e estúpidos, talvez em virtude de não se acharem acostumados a ver visitantes, que poderia ter abatido quantos quisesse com meu martelo geológico. "

(GFC): A espécie de pelicano trata-se do atobá-marron (Sula leucogaster), que ocupa metade do terreno da ilha principal, a Belmonte, onde a estação científica brasileira e o farol estão localizados. Já a espécie de gaivota é a viuvinha (Anous stolidus). Segundo André Seale, a população de atobás em 2004 era de 340 indivíduos, sendo considerados os "verdadeiros donos" da ilha. Alimentam-se dos caranguejos e peixes da região, e a coletânea de seus excrementos gera o guano, sedimento orgânico que cobre a ilha e dá seu aspecto esbranquiçado. Os atobás-marrons brigam bastante, principalmente quando a proteção do filhote é ameaçada - são capazes de bicar incessantemente, o que torna a vassoura para espantá-los uma ferramenta fundamental aos humanos que se aventuram por lá.

Atobá marron por Deep Sea Images:

(CD): "A fêmea do pelicano deitava os ovos sobre a rocha nua, mas a gaivota construía um ninho muito simples com algas."

(GFC): Estudos clássicos sobre comportamento animal[2], mostraram que as aves que não constroem ninhos elaborados e vivem em bandos, como as gaivotas, sabem reconhecer exatamente o seu próprio ovo memorizando seu padrão de manchas. Abaixo um ovo de viuvinha com padrão de manchas.

Ovo de viuvinha (Chest of Books)

(CD): "Ao lado de muitos destes ninhos podia ver-se um pequeno peixe-voador, ali deixado suponho eu pelo macho, a fim de servir às necessidades da companheira. Era muito divertido observar como um caranguejo (Graspus) morador das fendas dos rochedos, subtraía o peixe do lado do ninho, quando espantávamos as aves. Sir W. Symonds, uma das poucas pessoas que desembarcaram aqui , disse-me ter visto esses caranguejos chegarem mesmo a arrastar do ninho os filhotes e devorá-los".

Graspus Pedal Faster

(CD): "Nem uma simples planta, um líquen sequer, cresce nesta ilhota, o que não impede, todavia, que seja habitada por muitos insetos e aranhas. A lista que segue, creio, completará a fauna terrestre: uma mosca (Olfersia), vivendo à custa do pelicano, e um carrapato que deve ter vindo aqui como parasito das aves; uma pequena mariposa parda, pertencendo a um gênero que se alimenta de penas; uma barata (Quedius) e um piolho debaixo do esterco; finalmente numerosas aranhas que segundo penso, fazem presa sobre estes pequenos sequazes das aves marinhas."

Uma barata de gênero Quedius por Galerie Insecte

(GFC): A descrição de Darwin exemplifica as complexas relações observadas entre os seres vivos, onde a existência de um possibilita a dos demais. As aves marinhas são os precursores dessa fauna porque conseguem beber a água do mar, que possui uma concentração de 3,5% de sal. Se nós tentássemos matar a sede com ela de nada adiantaria, pois nossos rins não estão preparados para absorver tanto sal e o máximo que eles conseguem eliminar é 2,2%. assim, se um náufrago beber dessa água, o resultado será desidratação e morte. Como fazem as aves marinhas? Elas possuem uma glândula de sal, capaz de eliminar uma solução salina duas vezes mais concentrada que a água do mar. Por isso, elas podem comer alimentos super-salgados ou beber a água do mar sem susto. O excesso de sal é expulso através de canais que ligam a glândula às narinas.

De Diversae

(GFC) Darwin, nesta parte do diário, compara o ambiente inóspito dos rochedos com as férteis ilhas de coral, considerando as primeiras mais poéticas e questionadoras em relação à supremacia humana.

(CD):"Dar a descrição, já tão repetida, da majestosa palmeira e das outras plantas tropicais, em seguida a descrição das aves, e, por fim, a do homem que toma posse das ilhas de coral, logo que estas se formam no Pacífico, não será este talvez o modo correto de proceder, pois receio que a poesia desta história poderá perder seu encanto pelo fato de saber que os primeiros habitantes de uma terra oceânica, recém formada, foram aranhas, insetos e parasitos coprófagos."

(GFC): Darwin finaliza esta parte do diário comentando sobre a grande riqueza do arquipélago, que é a sua fauna de peixes. Isso tornou-se ótimo para a ciência, pois, atualmente, são os barcos de pesca que transportam as equipes de pesquisadores ao local Andre Seale[3].

(CD): "O menor rochedo nos mares tropicais, que der base para o crescimento de inúmeras variedades de algas e animais compostos, servirá igualmente de esteio ao desenvolvimento de grande número de peixes. Constante era a luta entre os tubarões e os marinheiros nos botes, para decidir sobre a posse dos peixes apanhados no anzol. Ouvi dizer que um rochedo perto das Bermudas, muitas milhas no alto mar, e a uma profundidade considerável, deveu sua descoberta à circunstância de ter sido notada a presença de peixes nas suas imediações."

Notas:
[1] - Texto usado para as citações: Darwin, C., Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo - Vol.1, Nova edição, 1871. Abril Cultural. Companhia Brasil Editora, São Paulo, s/d.

[2]- MANNING, Aubrey. Introdução ao comportamento animal. 1ed. Rio de Janeiro : Livros Técnicos e Científicos, 1977.

[3] – Como é a estação de pesquisa do arquipélago de São Pedro e são Paulo? É uma edificação de madeira de 45 metros quadrados, onde equipes de quatro cientistas e pesquisadores revezam-se a cada 15 dias, com o apoio da Marinha do Brasil. As instalações compõem-se de uma cozinha, uma sala de refeições, centro de comunicações, quarto para quatro pessoas, quarto de banho e varanda. O telhado conta com painéis fotovoltaicos para geração de energia elétrica. À pequena distância, ergue-se um abrigo para os geradores e baterias, um equipamento de dessalinização da água do mar e outro abrigo para cilindros de oxigênio e de gás. Uma passarela liga a base ao ponto de embarque, servido por um turco. Entre os equipamentos científicos da base destaca-se um marégrafo (Wikipedia).

[4]-Conheça outros relatos de Darwin sobre o Arquipélago de São Pedro e São Paulo na parte 7 do Diário

[5]- O que significa Pelágico? Do latim pelagos significa o "mar aberto". Assim, diz-se dos organismos aquáticos que nadam livremente na coluna de água. Fazem parte deste grupo as baleias e muitas espécies de peixes que vivem geralmente em cardumes, como as sardinhas, as anchovas, os atuns e muitos tubarões.

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14 Maio, 2009

Os fundamentos do Estado Brasileiro sob o ponto de vista da ética hegeliana.

8º Capitulo: "Tensionamentos Filosóficos sobre Distinções entre Ética e Moral na Política Brasileira."

Autor: Isaias Malta da Cunha
Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Ética e filosofia Política
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Köche
Bento Gonçalves, agosto de 2007.

Traçar paralelos entre o Estado brasileiro sob o sistema hegeliano é desafiador tanto pelo estabelecimento de confrontações antitéticas, como pela descoberta de sinonímias. Para Hegel “Por si só um povo não constitui um Estado. O passo que dão uma família, uma horda, um clã, uma multidão, etc., para se converter em Estados equivale a realização formal da idéia universal nessas entidades coletivas.” (HEGEL apud CORDUA, 1992, §349), contrariamente ao que aqui foi efetivado: “Vinda para o Brasil, a estrutura centralizada, burocrática e patrimonialista de governo foi transplantada, inicialmente com o estabelecimento do Governo Geral em 1548 e, muito mais tarde, com a mudança de toda a Corte portuguesa para o Rio, em 1808”. (SCHWARTZMAN, 1982, cap.1)

Então, contrariando a suposição de Hegel, aqui o Estado foi criado pronto antes da formação da sociedade civil e, numa ousadia a mais, pode se dizer que o Brasil estando no descobrimento em estado de natureza, caracterizado pela ausência de relações sociais estáveis, sem ter atingido o momento da particularização, saltou diretamente da singularidade à eticidade, diante da inexistência do direito abstrato entendido como: “o elemento abstrato do direito chega a sociedade civil e penetra no seu centro, na administração e justiça, ou literalmente do direito (‘Rechtspflege’). Aqui a liberdade abstrata, encerrada e contida dentro de si, se transforma em liberdade formal (civil). Como? Mediante um sistema de leis e códigos”. (BECCHI, 1993, p.17).

Mesmo com o Estado implantado, o direito abstrato não existiu no Brasil até que “a instalação do governo-geral, em 1549, revogou, em parte, o poder judicial fracionado entre os donatários”. (CARVALHO-FILHO, 2004, p.3), pois “Capistrano de Abreu explica que “estando as capitanias na condição de Estados estrangeiros relativamente às outras, impossibilitava-se qualquer ação coletiva: os crimes proliferavam na impunidade, a pirataria surgia como função normal [...]”. (ABREU apud CARVALHO FILHO, 2004, p.4).

Algumas questões podem ser levantadas sobre as origens históricas do Estado, com o objetivo de rastrear o instituto da impunidade, para fornecimento de argumentação à hipótese que caracteriza tanto a impunidade, como a corrupção como males sistêmicos, portanto, problemas hereditários. A origem nefasta dos Estados americanos tende a tomar vulto como fator desencadeador, por ter ocorrido a imposição ética de cima para baixo e a fixação da sociedade civil atendendo aos estritos fins de povoamento, não como evolução histórica e nem por decorrência de um contrato, cuja implementação é sonhada até hoje. O avanço da análise sobre os princípios necessita do recuo às intenções da civilização européia em querer colonizar a nova terra de proporções ainda insondáveis.

Quando aqui chegou, o homem branco encontrou indivíduos vivendo em pleno laissez-faire do estado de natureza, como Rousseau imaginara para o seu “bom selvagem”. Apesar da insuficiência de evidências sobre os anseios dos índios em se submeter ao processo civilizatório, há registros que descrevem que este se deu por intermédio da sua escravização, corrupção e exterminação. O nascimento do Estado brasileiro, contraditoriamente às correntes filosóficas, não atendeu a hipótese do naturalismo grego-aristotélico da constituição da polis, pois os índios brasileiros permaneceram estagnados por milhares de anos numa organização social tribal aquém da Cidade-Estado grega, nem ao subterfúgio contratualista moderno, cujo reflexo é o conflito continuado impedidor da realização do Estado como idéia da sociedade civil. A tentativa de um primeiro contrato foi a decisão de dividir a nova terra em feudos, ou sesmarias, destinados às “criaturas do rei”, na forma de propriedades eternas e hereditárias:

É digno de nota que, antes do estabelecimento do Governo Geral em 1548, institui-se um sistema de capitanias de características feudais, porém sem sucesso. Essas capitanias deveriam ser transmitidas de pais para filho, e a coroa portuguesa teve de readquirir uma delas, quando o Governo Geral estava prestes a ser criado. (SCHWARTZMAN, 1982, cap.1).

A ilegitimidade inicial desencadeada pelos atos unilaterais das cortes européias, por certo comum a todos os povos da América, tem assumido características peculiares sob a forma de marcas indeléveis no modo como a sociedade se organizou: um Estado ilegítimo englobando uma sociedade civil incipiente formada por criminosos em conflito interminável contra um Estado longínquo, ausente, punitivo e explorador de riquezas. A decorrência da fome crescente por “derramas” foi o aprimoramento da paranóia social contra os símbolos do Estado, desenvolvida como mecanismo de defesa frente aos crescentes apetites tributários das cortes portuguesas (lembrando levemente o atual “custo Brasil”). Mas a profilaxia resultante da ruptura com o Estado português nunca veio, pois o ato de independência foi apenas mais um decreto unilateralmente assinado para acomodar interesses proprietários da família real:

Tornado independente em 1822 por um membro da realeza portuguesa, a linha de continuidade nunca foi completamente quebrada, e isso é importante para a compreensão da institucionalização estável do Governo brasileiro durante o período colonial e, mais tarde, na segunda metade do século XIX. (SCHWARTZMAN, 1982, cap.1)

A continuidade histórica, eleita como o leitmotiv deste estudo, pode ter sido em decorrência da nulidade de grandes contestações ao modelo lusitano de rapinagem criado à imagem e semelhança da aristocracia portuguesa, que por aqui implantou um modelo centralizador sui generis até na Europa de um Portugal mal saído da idade média. Mesmo que as motivações dos primeiros anos tenham se extinguido, a herança centralizadora persiste, mesmo que na formalização da “República dos Estados Unidos do Brasil” contenha princípios análogos aos da federação norte-americana, a divisão do poder efetivada os transformou em letra morta:

O processo de ocupação espacial do Brasil deve ser visto a partir do entendimento da própria história portuguesa, que parece jamais ter apresentado a estrutura descentralizada característica do tipo europeu clássico de organização feudal: A nobreza, a seguirmos Antônio de Sousa, nunca chegou a criar raízes no campo, nem teve função civilizadora, função de direção e proteção dos moradores locais; apresentava-se, antes, como parasita da população e do poder central”. (SCHWARTZMAN, 1982, cap.1).

A imposição original e a ilegitimidade remanescente se configuram em aproximações ao modelo hegeliano construído sobre uma base dicotômica em que a mediação entre as instâncias universalizante e particularizada não se dá através da via democrática, não que o Estado pensado por Hegel seja ilegítimo, mas a verossimilhança é aceitável quando o impulso universalizador é visto não como instância de liberdade, mas por sua neutralidade utilitarista que se efetivou com o estrito propósito de sanear as crises do reino português. Mais tarde, finda a dominação lusitana, o impulso inicial continuou inercialmente preso aos propósitos geradores da exploração e pilhagem, em favor não mais do além mar, mas da figura eticamente internalizada. Mesmo não satisfazendo o rigorismo conceitual de Hegel, o Estado brasileiro, é em alguns aspectos a efetivação ética daquilo de que ele é acusado:

Hegel (1770-1831) restabelece a distinção entre Estado e sociedade civil, mas põe o Estado como fundamento da sociedade civil. É o oposto da concepção democrática, segundo a qual, a soberania é do povo que a exprime no Estado, ou seja, a sociedade civil triunfa sobre o Estado. Para Hegel, é este que absorve a sociedade civil. Há, portanto, uma crítica da concepção individualista de liberdade, mas que desemboca numa solução conservadora. A sociedade civil hegeliana “é uma arena de necessidades particulares, interesses egoístas e só através do Estado, pode o interesse universal prevalecer. (NUNES, 2000, p.2)

Apesar da superação dos períodos de totalitarismo, subsiste no cerne do Estado brasileiro o caráter despótico do monarca subsumido. E mesmo sendo um Estado de direito dotado de mediações democráticas no compartilhamento do poder, persiste a figura ética do príncipe permeando as ações políticas. Tal ambigüidade define bem a característica brasileira do acolhimento conflituoso da modernidade, cujo impulso é a realização do bem público, simultaneamente a arcaica força conservadora, mantenedora dos privilégios de uma minoria aristocrática precipuamente dedicada à espoliação.

Com efeito, se chega assim a esta conclusão paradoxal de que em Hegel estariam presentes ao menos duas formas distintas de Estado igualmente legitimadas: uma orientada em sentido claramente liberal (a sociedade civil), a outra, num sentido não tão claramente definido, porém em todo caso totalitário (o Estado ético). (BECCHI, 1993, p.14)

A hipótese suscitada do Estado totalitário e impermeável a mudanças sobrevivente sub-repticiamente entremeado sob a visibilidade do Estado moderno, busca a sua sustentação na observação empírica da deficiente realização da “sociedade civil como o fenômeno do Estado, e o Estado como a idéia da sociedade”. (SCHWARTZMAN, 1982, cap.2). A falta de vocação da sociedade em questionar eticamente as estruturas e a sua imensa dificuldade em superar o imediatismo da perspectiva moral, revela a magnitude da força ética submersa no inconsciente coletivo. Portanto, simultaneamente à constatação unânime de que é preciso mudar as bases das mediações entre Sociedade Civil e Estado, a falha na distinção entre ética e moral dos agentes críticos oportuniza a hereditariedade das cláusulas pétreas garantidoras de privilégios.

Em nosso tempo, em especial no Brasil, existe grande confusão entre o campo ético e o moral. A falta de clareza conduz a situações aparentemente sem saída. Há na fala cotidiana e na política uma passagem ambígua e pouco justificada entre a ética e a moral. O mais comum é se imaginar que a primeira possui caráter imperativo, como se ela reunisse uma tábua de valores e normas a serem aplicadas aos casos particulares surgidos na vida cotidiana. De modo semelhante, dá-se à moral um estatuto rígido, como se ela estivesse vinculada aos campos mais restritivos dos juízos comportamentais. (ROMANO, 2007, p.1)

A defesa da hipótese da conservação dos vieses da herança colonial pode levar à precipitada conclusão de que o Estado é culpado. No entanto, o senso comum já proferiu há muito a sentença de condenação como expressão unânime de uma percepção social, talvez resultante da ilegitimidade histórica não resolvida. Porém a filosofia deve ir além das percepções consensuais e questionar os porquês da continuidade do conflito, mesmo diante da ciência do problema. Não há muitos caminhos teóricos a seguir senão a via da tematização das forças que se originam na sociedade civil em direção ao Estado, gerando um movimento contestador suficiente para a realização de reformas. Então a percepção inicial culpabilizadora do Estado pode estar equivocada quanto ao objeto: ou o Estado é culpado por sua atuação monolítica, ou a sociedade tem cooptado reiteradamente para a manutenção do equilíbrio de forças. Portanto, as esperanças gerais da sociedade civil além de repousarem na reforma do Estado, sempre postergada durante os momentos das constituintes, não pode prescindir da reforma dos seus próprios pontos de vista. A instância das organizações da sociedade civil também devem responder pelo seu baixo nível de intervenção no movimento dialético de contestação das estruturas estatais.

A contemplação teórica do conflito do Estado tem tido algumas vias de abordagem; a socialogizante que mantém seu foco nas formas de apropriação do poder, e a via filosófica em que as relações éticas devem ter a prioridade. O escopo deste estudo tem o seu direcionamento especulativo voltado para a segunda e assim, apesar de considerar a historicidade inerente à formação do Estado brasileiro e seus efeitos remanescentes na sua forma de mediação com a Sociedade Civil, ao pensá-lo filosoficamente, vislumbra um Estado fortemente ético, estabilizado ao longo de quase quinhentos anos, comparável ao Estado totalitário interpretado em Hegel, na contra mão do senso comum que o qualifica de fraco.

À primeira vista pode parecer bizzarro o estabelecimento de tangenciamentos entre a austera idealização de um Estado quase prussiano e uma república tropical tida como a excelência da malandragem, ao sabor folclórico da “república das bananeiras”. Porém a falta do cumprimento das leis, a impunidade e o “jeitinho brasileiro” de tirar vantagem em tudo, normalmente ofuscam a persistência de um Estado ex-escravagista que libertou os escravos sem conceder-lhes a alforria econômica, que aboliu a nobreza transfigurando-a em aristocracia política, que manteve intacta a proporcionalidade de apropriação de riquezas entre ricos e pobres ao longo da sua história. Assim, a percepção do Brasil como um Estado hegeliano do “mal” se dá pela uniformidade dos seus indicativos sociais reveladores de uma estrutura ética eternizadora da concentração do poder político e econômico. Tal uniformidade histórica pressupõe um totalitarismo ético, que impede a sua consumação “como o momento supremo e definitivo da vida social do homem” (BECCHI, 1993, p.5), e neste ponto do paralelismo se pode apontar coincidências entre os mecanismos de mediação entre o Estado e Sociedade Civil conceituais de Hegel e a realidade vigente no Brasil, ressalvando-se o antagonismo de fins, que enquanto o idealismo hegeliano concebe a universalização do Estado para o bem:

A forma infinita da subjetividade enquanto infinita possibilidade deverá ser reconduzida [para si], sob o ponto de vista de seu próprio conteúdo, para a universalidade do bem. A ética representará exatamente o modo como estas duas totalidades serão reunidas concretamente, ou seja, de um modo determinado. O direito é a liberdade realizada [§4], é o momento onde o em si e o para si da vontade unem-se [§ 33]. (DUTRA, 2007, p.3)

O sistema estatal brasileiro apresenta uma ética de conteúdo teleológico predominantemente voltado para a conservação dos esquemas de apropriação de poder e a camada de direito abstrato protetora da casta aristocrática. Mesmo que não seja factível reconhecer no Estado a existência de “determinações éticas” conscientes ou inconscientes, há a constatação empírica da existência de uma “vontade” conservadora, a confirmar as suposições de Hegel:

Ao contrário de Marx e Habermas, para os quais o Estado não tem determinações éticas enquanto tal, Hegel concebe no próprio Estado uma determinação ética, permitindo-lhe olhar a sociedade civil com olhos de quem busca estratégias de realização, ao modo da filosofia da história, dos conteúdos já cristalizados na eticidade do Estado. (DUTRA, 2007, p.3)

Ora, a reflexão sobre o Estado brasileiro leva a supor que, ao contrário do que pensaram Marx e Habermas, há determinações éticas em ação para justificar tão grande sobrevida histórica, porém não é necessariamente o tipo de ética para o bem que Hegel implicou na sua formulação de movimento para a universalização. Pode-se admitir que “[...] a sociedade civil força o indivíduo à atitude performativa de busca do universal, do correto, do justo.” (DUTRA, 2007, p.3), mas não é forçoso admitir que o Estado brasileiro em sua efetivação universalizante busque conscientemente o correto e o justo, em face de tudo aquilo que já foi exposto em termos de reconstrução de uma história de reafirmação da verticalização do poder e a sua manutenção nas mãos de uma aristocracia burocrática e econômica.

As causas da sobrevivência do império monolítico implantado no Brasil há 500 anos são objeto de muitas especulações, cujo estudo deve transcender à mera causalidade inerente à organicidade estrutural, numa via alternativa à epistemologia sociologizante. Este estudo tem buscado na ética compreendida “[...] como a linha das condutas que se tornaram hábitos assumidos sem maiores debates.” (ROMANO, 2007, p.3). O cerne do debate aqui estabelecido tem tentando fugir do reducionismo de condenar a totalidade do sistema político à mera reprodução histórica, atribuindo-lhe um “caráter absoluto e imutável no tempo”. É o perigo apontado por Schwartzman quando triunfa a tentação de responder a todos os problemas com uma explicação:

A principal crítica que se pode fazer a Faoro é a sua tendência de atribuir ao patrimonialismo político brasileiro um caráter absoluto e imutável no tempo. Como observa Antônio Paim: No afã de enfatizar a novidade que trouxe a debate, adotou uma atitude extremamente radical ao deixar de reconhecer o caráter modernizador que o patrimonialismo lusobrasileiro chegou a assumir em certos momentos de sua história. Mais grave, parece-me, a perda do sentido histórico da evolução do liberalismo na crítica à experiência do sistema representativo, sob o Império, desde que a efetiva desde o ponto de vista que a doutrina liberal veio a assumir muito mais tarde. Finalmente, ofuscado pela magnitude da própria descoberta, inclina-se por torná-la uma espécie de lei inexorável de nosso desenvolvimento, ou então uma herança a repudiar em sua inteireza. (PAIM apud SCHWARTZMAN, 1982, cap.3)

O mesmo pode ser usado como mote crítico a hipótese dos elementos éticos remanescentes do antigo Brasil colonial, suscitando a pergunta justa: que coisas realmente se modernizaram e quais permaneceram fieis ao modelo quinhentista? Quase tudo está equiparado aos requisitos das democracias modernas e quase nada permanece dentro do espírito das Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas. Porém o quase nada tem representado um obstáculo intransponível para que o Estado assuma a configuração de prestador de serviços, uma vez que ao invés do welfare state, ou Estado Social, subsiste o arcaico Estado extrativista em seus apetites de drenagem da riqueza nacional, que alimenta uma máquina de corrupção sistêmica.

No entanto a dubiedade do processo impede que lhe seja atribuído o caráter de estagnação histórica, pois simultaneamente à conservação ética de alguns princípios, outra parte do sistema acompanha as demandas impostas pelo dinamismo dos novos tempos e impõe formas renovadas de intermediação entre Sociedade Civil e Estado, para mitigar a conflituosa relação estabelecida desde os primórdios da colonização, pois:

[...] para Hegel, a sociedade civil é o fenômeno do Estado, e o Estado a idéia da sociedade. Esta não é uma realidade imutável, mas o resultado de um longo processo histórico que se teria iniciado a partir de uma indiferenciação entre as duas esferas na Cidade Clássica grega e culminado no Estado prussiano sob o qual vivia Hegel. Nesse Estado, a Idéia se apresenta como o Soberano e a Constituição, sendo a mediação entre a Idéia e a sociedade exercida pelas várias instituições intermediárias, tais como a opinião pública, a representação de grupos civis no Estado, a burocracia etc. (SCHWARTZMAN, 1982, cap.1).

O conjunto de “várias instituições intermediárias” atuando sobre o Estado e exigindo prestações de contas representa a grande novidade no sentido da modernização. O Príncipe, uma figura ética subsumida que representa o poder imperial da aristocracia dialeticamente internalizada, tem um desafio para a conservação da sua soberania: as pressões vindas da sociedade civil sob a forma dos Mecanismos de Controle Social explicitados na Constituição Federal de 1988 inauguraram uma nova camada de mediação na relação predominantemente unívoca entre Estado e sociedade.

Bibliografia.

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13 Maio, 2009

Fagocitose e movimento em amebas e ciliados.

Por Gladis Franck da Cunha

O vídeo mostra a fagocitose de uma bactéria por uma ameba. A bactéria está aderida à membrana da ameba no lado direito do vídeo. A ameba emite pseudópodes na até englobar a bactéria, que, após o englobamento, se movimenta dentro do fagossomo. Este fagossomo tem uma tonalidade levemente mais clara que o citoplasma e pode-se notar que alguns grânulos do citoplasma se aderem a sua membrana, tais grânulos são os lisossomos. Após alguns instantes, cessam os movimentos da bactéria que já está sendo digerida pelas enzimas hidrolíticas dos lisossomos.

Uma ameba se desloca através de pseudópodes. A utilização de corantes naturais permite uma melhor visualização dos movimentos das vesículas citoplasmáticas. Fica evidente que a emissão de pseudópodes resulta da pressão dos líquidos internos sobre a membrana plasmática. Isso decorre da despolimerização da trama terminal nestas regiões do ectoplasma.


A Vorticela sp. é um protozoário ciliado que possui um pedúnculo com o qual se fixa ao substrato. Os cílios se localizam numa região radial da célula e seus movimentos agitam a água na região do citóstoma, possibilitando a alimentação da célula por pinocitose.

No vídeo abaixo observam-se Paramecium sp. que estão se alimentando de fungos unicelulares que foram corados com vermelho do congo. Não se observa mudança da forma dos paramécios como ocorre com a ameba, porque eles fazem pinocitose, mas à medida que absorvem os fungos o seu interior vai ficando avermelhado pela ação do corante. O vermelho do congo é um corante natural não tóxico para as células.

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